domingo, 30 de março de 2008

O Número

Meu avô é burro
Não sei se ele é burro
Mas meu avô não é inteligente
Não sei se ele não é inteligente
Mas o meu avô é esquecido
Ah, isso sim, ele é esquecido
Muito esquecido
Muito
Ele não consegue lembrar do número do telefone
Do amigo dele
Não sei quem é o amigo
Mas deve ser importante
Só não sei por que ele sempre se esquece
Já que é tão importante
Ele deve ser muito esquecido mesmo
Porque ele escreveu esse número no braço
Então ele é esquecido
Não sei por que ele escreveu no braço
Ele podia ter escrito num papel
Não sei porque ele não escreveu num papel
Já que é tão importante
Ele não deve ser muito inteligente
Porque ele escreveu muito forte
Então ele não é muito inteligente
Não sei por que ele escreveu tão forte
Mesmo sendo importante
Ele deve ser burro
Porque a tinta da caneta não sai
Ele é meio burro, então
Não sei porque ele usou uma tinta que não sai
Só porque é importante
Ele não me parece burro
Ele até me parece inteligente
E agora que eu penso
(Cá entre nós)
Ele não costuma a se esquecer das coisas
Só desse número
Que ele escreveu
A caneta
Com tinta forte
No braço

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

GAZA 2008

Sobre Gaza

Impossivel ficar calado quanto aos ultimos acontecimentos.Muito da midia dita alternativa, leia se a midia de esquerda , revistas que leio, que nós lemos ,nós da esquerda , como a Carta Capital, Caros Amigos, jornal da CUT, E que convenhamos, parecem inumeras vezes não pensar que em Israel não há um setor de autocritica contundente e que diariamente trava batalhas contra setores mais conservadores, leia se , de direitas ,quanto a qualquer acordo de paz e os constantes ataques a cidades israelenses situadas na fronteira com Gaza e Libano.

Israel deixou o Libano, deixou Gaza,mas ha uma decada os ataques ,antes ou depois do desengajamento de Gaza continuam.Claro que qualquer represalia será tida como atos em força desmedida , de um exercito contra ...um exercito invisivel que se esconde por dentrás de instalaçoes civis .Este texto estou dando uma endireitada..estava escrito e acabei por conserta-lo para o grupo de discussão ...mas talvez as informaçoes sirvam ao menos por ser um texto em português...Na verdade é uma resposta ao que ando lendo por aqui e assistindo na tv. Aqui no Brasil...imagine como deve estar a situação em Gaza , com as açoes do Exercito israelense...Mas cabe a reflexão quanto aos ultimos acontecimentos e o tom que a midia internacional concede à questão.E sobretudo do ponto de vista estrategico ,mas imprescindivelmente humanitario!!!

invadir não é a solução.Alias, o uso da força quase nunca é a melhor soluçao!!!
Raiva, frustração e impaciência estão cada vez mais tomando os israelenses. Não podemos cair na armadilha que o Hamas nos está preparando - de que deveríamos enviar nossos soldados a Gaza.

Porque o número de baixas numa invasão terrestre de Gaza seria muito maior do que o causado pelos mísseis Qassam nos últimos sete anos. Porque durante cinco, entre esses sete anos em que eles foram disparados, nós controlávamos toda a Faixa de Gaza. E centenas de foguetes foram lançados em Sderot (cidade no sul de Israel, na fronteira com a faixa de Gaza e cheia de judeus sefarad )do mesmo jeito, somados a repetidos ataques sangrentos contra os colonos israelenses que viviam ali. Parece que nos esquecemos disso...

Reocupar a Faixa de Gaza não irá necessariamente acabar com os bombardeios de Sderot e vizinhanças. Além dos ataques ali, nossa força de ocupação será fustigada dia e noite por fogo de armas leves e ataques suicidas.

Mais ainda, uma invasão de Gaza irá unir as massas palestinas e os mundos árabe e muçulmano em torno do Hamas, que no presente é isolado e antipatizado pela maior parte dos árabes.
Tão logo forças israelenses invadam Gaza, os homens do Hamas serão vistos - pelos palestinos, o mundo árabe e a opinião pública internacional - como os defensores da Massada Palestina - poucos contra muitos, bairros residenciais frente a um exército regular, campos de refugiados à sombra de esquadrões de artilharia, meninos combatendo tanques, David contra Golias.

Se conquistarmos Gaza, nos veremos sentados sobre espinhos e escorpiões. A força de ocupação não terá um único dia de paz. E tampouco terão os habitantes de Sderot e do seu entorno.

Mesmo em dias de raiva como estes, quando nossos corações se unem ao atual sofrimento dos israelenses que moram lá, não podemos esquecer que a raiz do problema de Gaza é que centenas de milhares de seres humanos estão ali apodrecendo em campos de refugiados - campos que incubam pobreza e desesperança, ignorância, fanatismo religioso e nacionalista, ódio e violência.

Repito as palavras do escritos Tariq Ali quanto a questão e sua concordancia de que há sim, em Israel até mesmo na midia a inquietação quanto ao assunto e a necessidade de olhar 'o outro lado' da questão

"Existem alguns valentes críticos israelenses, como Aharon Shabtai, Amira Hass, Yitzhak Laor e outros, que não estão dispostos a que suas vozes sejam silenciadas desta maneira. Shabtai recusou-se a participar desta feira. Como poderia eu agir de outro modo?"


Do ponto de vista histórico, não pode haver solução para o problema de Gaza enquanto o horizonte não mostrar pelo menos o mínimo de esperança para essa gente desesperada.
Então, o que podemos fazer agora?

Podemos e devemos chegar a um cessar-fogo com o Hamas em Gaza.

Um cessar-fogo virá a um alto preço político, claro. Mas dado o preço que Israel iria pagar por uma decisão equivocada e impulsiva, é a opção menos mortal e mais suportável.
A alternativa de invasão militar seria catastrófica.é mais um preço que Israel tem de pagar junto a opinião critica mundial...

***'Tzahal' é o nome abreviado do exercito israelense...tzana haganá le Israel(forças de defesa israeli)*'hamas' é partido e grupo armado palestino

domingo, 10 de fevereiro de 2008

110 ANOS DE BERTOLT BRECHT



UM GENIAL DRAMATURGO CONTRA O NAZISMO

Gênio inovador do Teatro, Brecht colaborou com vários judeus da fina nata intelectual artística: Kurt Weill, Walter Benjamin, Lion Feuchtwanger, Theodor Adorno, Paul Dessau, Hanns Eisler, Fritz Kortner, Theres Giesch, Oskar Homolka, Fritz Lang, Alexander Granach, Peter Lorre, Ruth Berlau, Angelika Hurwicz, e, principalmente, sua esposa, Helen Weigel


Bertold Brecht nasceu em Augsburgo, na Alemanha, região da Bavária, no dia dez de fevereiro de 1898. Hoje comemoramos 110 anos de seu aniversário. Nascido de mãe protestante e pai católico, Brecht teve uma importância gigantesca para a cultura judaica do século XX, tendo trabalhado com alguns dos mais talentosos artistas e intelectuais judeus da Alemanha de sua geração. Como dramaturgo, foi um dos exemplos mais resilientes de artista engajado, exemplo clássico do intelectual marxista, que, dotado de um espírito revolucionário não só nas suas posturas como também na sua estética, Brecht se tornou sinônimo de militante artístico, cuja orietnação socialista e abordagem inovadora influenciou gerações de artistas no Ocidente, inclusive o brasileiro Augusto Boal.



Formado na Königlich-Byarischer Realgymnasium em 1917, o jovem Bertold ganhava seus primeiros trocados escrevendo artigos de jornal desde julho do ano anterior. Ao se formar, inscreveu-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Munique, esperando escapar do alistamento militar que ceifara boa parte de sua geração na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), mas o Exército acabou convocando-o mesmo assim--a um mês do fim da guerra. De volta à faculdade, Brecht se enamorou pelo teatro e em 1918 escreveu sua primeira peça Baal, que só seria encenada cinco anos depois. Em 1919 ele estreou como ator nas esquetes de comédia política de cabaré de Karl Valentin e como escritor foi bem prolífico: escreveu Trommeln in der Nacht, Der Bettler oder Der tote Hund, Die Kleinbürgerhochzeit, Er treibt einen Teufel aus, Lux in Tenebris, Der Fischzug. Em 1922 Trommeln in der Nacht (Tambores na Noite) tornou-se a primeira peça de Brecht a ser encenada, ocasião na qual casou-se com Marianne Zoff, com quem teve uma filha, Hanne Hiob, no ano seguinte. Foi outro ano consagrador para Brecht, que encenou Baal e Na Selva das Cidades.

Mas foi em 1924 seu grande divisor de águas: ao escrever Eduardo II com o dramaturgo judeu Lion Feuchtwanger, seu colega de cinco anos, Brecht fez sua primeira colaboração criativa e primeira adaptação de um clássico e sua--de quebra, estreeou o seu lendário conceito de "Teatro Épico" e a peça estreeou no mesmo ano. Como se fosse pouco ainda começou dois trabalhos: Mann ist Mann e Der Elefantenkalb, que seriam completados em 1926, não antes de Brecht ser apresentado a três intelectuais e moldariam sua vida e sua obra. O ano era 1925, e Brecht assistiu ao filme Em Busca do Ouro de Charlie Chaplin, que para Brecht era um artista bem mais próximo dos critérios do Teatro Épico do que do teatro dramático. Brecht inclusive o comparou a Karl Valentin e ambos foram inspirações pro personagem Galy Gay de Mann ist Mann--por sua vez, Brecht teria influenciado Chaplin em Monsieur Verdoux. Outro marco de 1925 foi O Encouraçado Potemkin do cineasta judeu Serguei Eisenstein. E, finalmente, em 1926, época em que se divorciou e se envolveu com a atriz socialista Elisabeth Hauptmann, passou a ler aquele que é o mais notável intelectual alemão de origem judaica: Karl Marx. Os trabalhos de Marx foram tão influentes que Brecht declarou: "Quando eu li O Capital, eu entendi o significado das minhas peças."

Esse significado se tornaria uma referência fortíssima do trabalho de Brecht. Determinado a escrever um obra que abordasse os dramas complexos da sociedade capitalista, Brecht começou a escrever freneticamente; ao mesmo tempo se engajava na ópera, escrevendo e encenando uma ou duas peças por ano antes da ascensão nazista (incluindo A Ópera dos Três Vinténs, em 1928). Com a parceria do compositor Kurt Weill iniciada em 1927, com Mahoganny-Songspiel, começou a conceber uma de suas grandes obras musicais: Ascensão e Queda da Cidade de Mahoganny, que, ao ser encenada em 1930, provocou a revolta irascível de nazistas na platéia. Nesse ano, casou-se com a atriz judia Helene Weigl, recém-filiada ao Partido Comunista, com quem teve uma filha, Babara, nesse mesmo ano. Implacável crítica da economia industrial, Die Massnahme foi duramente combatida pelo Partido Nazista pelo seu conteúdo nitidamente marxista, e tão logo que Hitler chegou ao poder, o casal comunista Brecht e Feigl (que corria riscos ainda maiores por ser judia) foi morar na Dinamarca em fevereiro de 1933, onde viveram até 1939, quando, com a iminência da Segunda Guerra Mundial, fugiram pra Suécia e de lá pra Finlândia. Foi nessa época que a temática da obra de Brecht, além de seu caráter socialista, ganhou contornos especificamente anti-nazistas, como Galileu, Mãe Coragem e Seus Filhos, Der Gute Mensch von Sezuan, e A Ascensão de Arturo Ui.

Essa última peça é uma rica alegoria sobre a ascensão de Hitler, representado pelo mafioso de Chicago Arturo Ui, um impiedoso facínora. Outros líderes nazistas tem versões análogas na peça: o diretor da SA (SturmAbteilung) Ërnst Rohm é o gângster Ernesto Roma, o marechal Herman Göring é Emanuele Giri, e os empresários prussianos junkers são representados pelo Cartel do Couve-Flor, um sindicato patronal de grandes agricultores que produzem todo o couve-flor consumido em Chicago. A peça foi escrita nas três semanas que Brecht passou em Helsinque, esperando um visto de entrada para os Estados Unidos, onde morou de 1941 até 1947, quando a paranóia anti-comunista o submeteu ao constrangimento de depor no Comitê da Câmara de Atividades Anti-Americanas (HUAC, House Un-American Activities Committee). Eram os anos que antecederam a Guerra Fria, e, num prelúdio à caça de bruxas generalizada que o macartismo promoveria nos anos 50, o HUAC começou a perseguir intelectuais de esquerda e Brecht, após seu depimento, imediatamente regressou à Europa, morando um ano na Europa Ocidental, e, entre 1949 e 1956, quando morreu, na Alemanha Oriental, cujo regime comunista buscava fazer dele um ícone.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

CARNAVAL DA VIRADOURO: O HOLOCAUSTO BANALIZADO



A FESTA DA CARNE: A FIERJ LUTA CONTRA A FALTA DE TATO
O carnavalesco Paulo Barros pretendia desfilar com um carro alegórico com cadáveres do Holocausto e um folião vestido de Adolf Hitler: A Justiça impediu o escárnio
A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro conseguiu uma liminar na Justiça que impedia a escola de samba Viradouro de desfilar na Marquês de Sapucaí com imagens que tratavam o Holocausto de maneira pouco cuidadosa, sem a seriedade que o assunto exige. Muitas reações a favor, muitas contra, mostrando que o assunto continua sendo mal-discutido--e por isso não é num desfile de Carnaval que o erro seria reparado.
O carnavalesco Paulo Barros defendeu a sua alegoria: uma pilha de corpos esquálidos de vítimas do Holocausto nazista, um folião vestido de Adolf Hitler. Disse que sua liberdade de expressão estava sendo cerceada, e que sua arte, desrespeitada. Será mesmo? A F.I.E.R.J. teve o bom senso de contatar a Viradouro antes de entrar na Justiça. Pediu que Paulo Barros tirasse o folião sambando de Hitler e cobrisse o carro com a carnifica com uma faixa dizendo "Holocausto Nunca Mais". Paulo Barros recusou a proposta e a Justiça decidiu por ele. A F.I.E.R.J. atendeu às exigências da comunidade judaica, mas nem todos na comunidade maior entenderam direito. Muitos argumentaram a favor da F.I.E.R.J. e muitos contra, e entre estes as coisas mais ridículas foram ditas.

Disseram que a comunidade judaica não apreciava o valor artístico do Carnaval. Um argumento curioso, escorado inclusive em declarações do próprio Paulo Barros, que disse que cenas semelhantes num museu seriam respeitadas. Noves fora o argumento de Barros tratar de hipótese contrária aos fatos, uma certa solenidade é observada no museu que um desfile de Carnaval não tem por hábito. É razoável entender que, no trato de uma questão delicada e dramática como o Holocausto, uma certa dose de seriedade se faz necessária, para não se desmanchar o clima solene da consternação. O filme "A Vida é Bela" de Roberto Benigni, pode ser uma comédia, mas as partes referentes ao massacre não são mostradas de maneira gráfica. Há uma certa alusão ao Holocausto e o encarceramento é apresentado, mas cenas de tortura, de fornalhas de cadáveres e corpos esqueléticos não são exibidos. Benigni, filho de judeu, dirige com alguma delicadeza, fazendo questão de não exibir os aspectos mais horripilantes do Holocausto, inclusive em consonância do tema do filme de um pai tentando proteger seu filho da cruel realidade.

O mesmo não ocorre no desfile da Viradouro. O enredo chama-se "É de Arrepiar" e a pilha de inúmeros corpos mostra o lado mais arrepiante do Holocausto, de fato. Entre tantas coisas que nos arrepiam, dignas portanto de uma representação gráfica num carro alegórico, Paulo Barros escolheu uma cena de um dos massacres mais bárbaros perpetrados na História da Humanidade. Sem desmerecer os aspectos culturais do Carnaval, os desfiles das escolas de samba, sobretudo as do Grupo Especial, não são o foro mais propício a uma reflexão pesada e penitente; recheados de folia e descontração, parecem impróprios para exibir um Hitler saltitante sobre uma carnificina. O genocídio de judeus, ciganos, eslavos, homossexuais, negros, socialistas, pacifistas e testemunhas de Jeová é de arrepiar, mas não num sentido que fosse apropriado pro clima de festa hedonista e deslumbrante do Carnaval Carioca. Tantas outras coisas arrepiantes poderiam ser abordadas. Não há falta de coisas com que se arrepiar, a começar pelas reações negativas aos protestos da FIERJ.

Houve quem dissesse que o Carnaval sempre mostrou a escravidão dos negros e ninguém nunca reclamou. Bem, eu sempre entendi as alusões à escravidão como uma celebração da libertação. Mas se não forem assim, então que as pessoas reclamem. Acho curioso que entre os doze grupos que compõem o Grupo Especial da LIESa, não há uma única escola cujo presidente seja negro. A festa tradicionalmente lembrada como uma celebração da cultura negra do Brasil enriquece empresários brancos. Muitos dos quais estão envolvidos até o pescoço com a Máfia do Jogo do Bicho, e com isso são patrocinadores dos esquadrões de morte que assolam a Zona Oeste e as cidades periféricas da Zona Metropolitana. Esses grupos de extermínio invariavelmente oprimem os pobres e humildes, que são negros, em sua grande maioria. Sem falar que na Baixada Fluminense, a Máfia do Bicho possui laços fortíssimos com as igrejas chamadas de evangélicas. Nada contra os aspectos religiosos de qualquer igreja, mas muitos pastores lideram grupos de agressores contra terreiros umbandistas e candomblecistas. Associando os orixás com imagens satânicas, esses grupos, ditos cristãos, atacam sem trégua mães e pais-de-santo, que não recebem alento das escolas de samba. As máfias que controlam a Baixada Fluminense com mão-de-ferro nunca serão convincentes como defensores da cultura negra. Acima, estão retratados o bicheiro Turcão, da Viradouro, por ocasião de sua prisão, e o carnavalesco Paulo Barros com o atual presidente da Viradouro, Marco Lira.

De resto, as críticas à decisão da Justiça e à iniciativa da FIERJ resvalam num anti-semitismo barato. Reclamam que a decisão coube a uma juíza de origem judaica. Uma conspiração dos judeus contra o samba, talvez? Outros ressaltam o quão proveitosa a "indústria do Holocausto" é para os judeus, que aparentemente querem o monopólio em denunciá-lo. Uma carta ao Globo sugeriu que não havia como contestar o mau gosto, frisando que o mau gosto do Bar-Mitzvah corresponde a uma lavagem cerebral que nem Göebbels faria melhor, e que nem por isso os pais de meninos judeus deveriam ser processados. Como de costume, muitos aludiram ao "Holocausto palestino" como obra dos judeus que, aparentemente, não teriam, por esse motivo, direito de reclamar. Entre a hipocrisia da luta de raças soterrada por alegorias no Carnaval e a desfaçatez de críticos gratuitos da comunidade judaica que confundem alhos, bugalhos, e caralhos, prefiro ficar com a tenacidade da FIERJ e de seu presidente Sérgio Niskier, e rezo para o dia em que os defensores do direito de ser judeu sem medo se tornem defensores também do direito de praticar umbanda e candomblé sem medo, e combatam as igrejas evangélicas da periferia e os grupos de extermínio que lhes dão apoio.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Os Beta Israel e a luta pela inclusão em uma sociedade cosmopolita

na integra em :http://vidasmarranas.blogspot.com/2008/01/os-beta-israel-e-luta-pela-incluso-em.html

Em um pais de extensao territorial limitada, quase 70% de suas terras compreendendo desertos ,tem sido miraculoso e herculeo o esforço para a absorçao tambem de imigrantes , judeus da diaspora ,levas que nos ultimos 15 anos tem causado grande impacto na sociedade israelense.Israel tem primado em receber imigrantes das mais variadas partes do mundo. Em uma sociedade plural e que congrega judeus de todos quadrantes do planeta,a pequena pátria cosmopolita e ETERNA ERETZ ISRAEL( Chai am Israel),dentre seus habitantes judeus de origem mizrahi,sefarad, asquenazita ,falashim,coraichita e sabra ;além de arabes cristaos ,drusos e muçulmanos; circassianos, estima- se que haja hoje cerca de 250 mil estrangeiros não judeus em trabalho temporario em Israel.

Neste caleidoscopio humano as vezes noticias exoticas ou simplesmente ruins nos saltam aos olhos. Ha alguns meses fora a de neonazistas de origem russa (vindos da leva de 'judeus russos',hoje cerca de 1 milhao em Israel entre judeus pela halaká ou pela lei de direito de Retorno) aprontando em ruas de Jaffo e suburbios de Tel Aviv .Embora outras como o processo de cotas para a admissao de cidadaos arabes ,esforço para a educaçao e inclusao de drusos e beduinos, pouco é valorizado na midia. Sabemos que em Israel não funciona uma democracia perfeita,mas ativistas e a forte autocritica israelense tem se esforçado em prol disto. Desta recentemente em matéria publicada no jornal israelense Haaretz ,uma denuncia a discriminação racial que atinge estudantes judias negras, vindas da Etiópia, em colégio primário na cidade de Petach Tikva, para onde foram enviados a maioria dos que emigraram do país africano para Israel. Cabe salientar aqui que a absorçao em massa ao pais o foi a duras penas, uma vez que o pais obrigou-se a criar estruturar para a alocaçao de milhares de imigrantes em curto periodo de tempo.

"O Ministério da Educação abandonou os filhos de imigrantes da Etiópia. Todos os cidadãos merecem receber educação igual", afirmou Abraham Nagosa, líder da comunidade dos etíopes em Petach Tikva.O Banco de Israel liberou um informe onde se diz que os trabalhadores de origem etíope ganham, em média, metade dos salários da média dos trabalhadores do país. 52% das famílias dos etíopes são pobres. A maioria de seus integrantes em idade de trabalhar está desempregada. A comunidade etíope, que está em 1,4% da população, contribui com mais de 16% do total de israelenses abaixo da linha de pobreza.

Os judeus etíopes , ou chamados falashas constituem uma minoria em Israel, antes de comentarmos esse fato, é interessante conhecermos um pouco da fantástica história sobre os falashas, publicado na revista Morashá, escrito por Asher Naim.

Por quase 3.000 anos, os judeus negros da Etiópia, conhecidos como falashas(tom de diferenciaçao dado a estes pela populaçao etiope) e que se auto-denominam Beta Israel mantiveram sua fé e identidade lutando contra a fome, a seca e as guerras tribais. Acredita-se que eles faziam parte de uma das dez tribos perdidas, e houve grande mitificaçao quanto a seus ancestrais remontarem ao rei Shlomo e à rainha de Sheba (Sabá).Segundo historiadores a presença destes no planalto etiope ja conta bem antes disto.

Em maio de 1991, os falashas protagonizaram um êxodo milagroso. Com a Etiópia envolvida em profunda e brutal guerra civil, 14.200 membros dessa comunidade foram transportados de avião para Jerusalém pelas Forças de Defesa de Israel. A operação durou 25 horas.


O herói que idealizou e organizou o incrível resgate foi o então embaixador de Israel na Etiópia, Asher Naim. A epopéia foi narrada no livro Saving the lost tribe, lançado este ano, no qual Naim relata com humor e conhecimento de causa a ação que se tornou conhecida como Operação Salomão.

No outono de 1990, quando foi nomeado pelo governo israelense para o cargo de embaixador em Adis Abeba, sua identificação com os judeus etíopes foi imediata. Ele queria dar continuidade à chamada Operação Moisés, implantada em 1985 pelo serviço secreto israelense, o Mossad, em conjunto com a agência norte-americana CIA que, durante três anos, tentou tirar do país 14 mil falashas através do Sudão, levando-os de barco para Israel. O sucesso daquela operação foi relativo, pois na época, só oito mil pessoas conseguiram fugir; o restante adoeceu na viagem e muitos voltaram à Etiópia. Muitas famílias foram, assim, separadas.

História dos falashas

Em 1860, missionários britânicos que viajavam pela Etiópia foram os primeiros ocidentais a encontrar a tribo dos falashas, ficando surpresos ao ver as faces queimadas com traços semitas e que praticavam o judaísmo. Os membros dessa comunidade observavam o Shabat, mantinham rígidas leis rituais da forma como eram descritas na Torá.Pouco tempo depois, o estudioso judeu Joseph Halevy decidiu conhecê-los pessoalmente. Seria possível que esses judeus fossem parte de uma das tribos de Israel, perdidas há muito, foragidas do Primeiro ou Segundo Templo? Halevy foi recebido com curiosidade e desconfiança pelos nativos, que lhe perguntavam: O senhor, judeu? Como pode ser judeu? O senhor é branco!

Mas quando Halevy mencionou a palavra Jerusalém, todos se convenceram. Os falashas haviam sido separados de outros judeus por milhares de anos. Nenhum deles jamais saíra de seu vilarejo. No entanto, todos acalentavam um grande sonho, vindo de gerações passadas: voltar para Jerusalém. Os judeus da Etiópia sofriam as mesmas discriminações que os demais, na diáspora.

No início de 1970, havia um grupo organizado dos Beta-Israel que queria emigrar para Israel, apesar de seus membros ainda não serem considerados judeus, não tendo, portanto, direito a fazer aliá. Uma centena de falashas já vivia em Israel, onde começou um movimento liderado por um iemenita judeu nascido na Etiópia, Ovadia de Tzahala, que fizera aliá em 1930 e que tinha parentes entre os falashas. Por isso, pressionava- os a emigrar para Israel.

Operação Salomão


Em 1990, enquanto as forças rebeldes avançavam contra o ditador etíope Mengistu Haile Mariam (o açougueiro de Adis), foi ficando claro que os falashas seriam exterminados, a não ser que con-seguissem deixar o país. Asher Naim, excelente mediador, trabalhou em vários campos simultaneamente. Negociava com Mengistu, coordenava logística e estratégias com os militares israelenses e arrecadava doações, freneticamente, através de contatos nos Estados Unidos.

No dia 23 de maio de 1991, decidiu que havia chegado a hora de convocar a Força Aérea Israelense: a Ope-ração Salomão devia come-çar imediatamente. O ditador Mengistu aceitara as con-dições, mediante pagamento em espécie e impondo segredo absoluto.

Diante da embaixada israelense, milhares de falashas se acotovelavam, prontos para partir. Os primeiros aviões israelenses aterrissaram no aeroporto de Adis Abeba e uma equipe de comandantes muito bem preparados se posicionou para proteger a missão a qualquer custo.

No total, 14.200 emigrantes foram levados da cidade para o aeroporto Ben-Gurion, em Tel Aviv. Trinta e cinco aviões militares e civis fizeram 41 vôos. Em um dado momento, havia 28 aviões no ar. Um dos Jumbos, que normalmente poderia levar 500 passageiros, transportou de uma só vez 1.087 pessoas, num feito anotado no livro de recordes Guinness.


Para Asher Naim, o resgate dos judeus etíopes foi de importância vital. Ele queria liberar seus irmãos de um ditador tirano e assim assegurar a sobrevivência dessa tribo. Ajudando os falashas a voltar para Jerusalém, Naim chegou a um novo e profundo entendimento do verdadeiro significado de fé, de identidade e da luta para superar as adversidades. No seu livro, cita uma frase de Bernard Raskas: D'us não quer que façamos coisas extraordinárias. Ele quer que façamos coisas ordinárias, de forma extraordinária…

Em Israel, a adaptação dos imigrantes tem sido bastante difícil. A maioria era muito jovem e sem cultura nenhuma, sofrendo rejeição por causa de sua cor. Vários programas de institutos americanos e judaicos têm desenvolvido projetos especiais de educação intensiva para as crianças, como por exemplo, a escola Beth Zipora, no sul de Israel. O programa foi implantado por Elie Wiesel e ministra cursos de inglês e computação. O sonho dos judeus etíopes é formar líderes, médicos, engenheiros e até generais. O governo israelense tem feito campanhas para angariar fundos para sua absorção e sobrevivência, a fim de não deixá-los voltar ao mesmo ciclo de empobrecimento, amargura e desespero de seu passado na África.

Como vimos, os judeus da Etiópia são tão judeus quantos askenazitas,mizrahis ou sefaradis . Não podemos conceber, que após o reconhecimento da condição judaica dos judeus Etíopes por parte de Israel, parte velada de uma minoria judaica , os tratem de forma diferenciada. Aliás, Israel foi o único país que retirou negros da África para lhes dar a vida, conforto, estudo, trabalho e dignidade. Não há nenhum povo no mundo que tenha experimentado e vivenciado os horrores da discriminação racial, como o povo judeu, portanto, isso é abominável, e deve ser combatido com rigor; aliás não só em relação aos falashas, mas também em relação aos palestinos. Até porque aos olhos de D-us todos são iguais.

Não há racialismo em nosso lar! Chai am Israel.

sábado, 5 de janeiro de 2008

QUARENTA ANOS DA PRIMAVERA DE PRAGA DE ALEXANDER DUBCEK: 5 DE JANEIRO DE 1968, O SOCIALISMO VOLTA A SER HUMANITÁRIO





1968, O Ano Que Nunca Terminará: TCHCOSLOVÁQUIA DE DUBCEK RESTAURA O SOCIALISMO DOS LIVRES E BREZHNEV REAGE
O DESAFIO MÁXIMO AO STALINISMO (CUJA VOCAÇÃO ANTI-SEMITA ALEIJOU A TCHECOSLOVÁQUIA NO INFAME JULGAMENTO DE SLÀNSKY EM 1953) RETRATADO EM "ROCK 'N' ROLL", DE UM DRAMATURGO DE ORIGEM JUDAICA, TOM STOPPARD
A Primavera de Praga de 1968 foi um dos mais belos desperdícios da Guerra Fria, sufocada pelos tanques do Pacto de Varsóvia, que, sob a Doutrina Brezhnev, não podia tolerar a mais humanitária evolução do Socialismo Marxista-Leninista. O episódio, iniciado há exatos quarenta anos no dia cinco de janeiro de 1968, data da posse de Alexander Dubcek na Presidência da Tchecoslováquia, foi abruptamente sufocado por iniciativa do premier da URSS Leonid Brezhnev, e seria imortalizado na peça "Rock 'n' Roll" do dramaturgo judeu 'Tom Stoppard', vindo da Tchecoslováquia e radicado na Grã-Bretanha. O escritor, cujo nome real era Tomás Straussler, consagrou-se no cinema como roteirista de "Shakespeare Apaixonado" e do épico político orwelliano "Brazil--O Filme" e com adaptações de suas peças como "Rosencrantz and Guildenstern Are Dead", mas foi com a sátira política "Rock 'n' Roll" Straussler fez sua obra-prima retratando uma banda de rock desafiando o mainstream cultural para representar as reformas libertárias de Dubcek dentro do Partido Socialista Tcheco-Eslovaco desafiando o stalinismo soviético da velha-guarda do partido na primeira dissidência ao poder imperial de Moscou, desde os expurgos de 1952, em que os soviéticos condenaram treze altos dirigentes do partido--dos quais dez eram judeus--por crimes de conspiração Trotskyista-Sionista-Titoísta num julgamento ensaiado.
A Primaver de Praga teve seus antecedentes com o desgaste da estrutura do KSC (Komunisticka strana Ceskoslovensko, Partido Comunista da Tchecoslováquia) ocasionada com a crise econômica que atingiu a Tchecoslováquia na segunda metade dos anos sessenta, em meio a pressões para uma retomada do processo de Desestalinização. Na verdade, a vanguarda reformista do partido, liderada por figuras como Ota Sik e Alexander Dubcek já estava fazendo avanços desde 1963, quando líderes eslovacos desalojaram os principais tenentes da linha dura do partido de sua seção eslovaca (KSS, ou Komunisticka strana Slovensko, Partido Comunista Eslovaco). Na ocasião Dubcek, membro do Comitê Central do KSC desde 1962, tornou-se primeiro-secretário do KSS e firmou-se como a principal oposição ao linha-dura Antonín Novotný, líder supremo do KSC (na época o Partido Comunista mais stalinizado do mundo, desde o Julgamento Slànsky de 1952) e chefe de governo da Tchecoslováquia. Em outubro de 1967 os renovadores de Sik e Dubcek conquistaram a força e o prestígio necessários para desautorizar Novotný no Comitê Central do KSC, desencadeando a maior crise do partido desde os expurgos de 1952.
1952 foi o ano do Julgamento Slànsky, a última crueldade da vida de Josef Stálin, quando o Partido Comunista da URSS interveio no KSC para promover uma "limpa" nos seus quadros dirigentes, a fim de assegurar o controle absoluto do partido pelos elementos mais fanaticamente leais ao stalinismo soviético. Num processo judicial altamente enviesado e tendencioso, treze altos hierarcas do KSC foram condenados (muitos à morte) por participar de uma "conspiração Trotskyista-Sionista-Titoísta". Se a combinação de Trotsky, Josip Tito e sionismo judaico soa levemente anacrônica, havia um elemento que unificava a maioria desses dirigentes para além dessas três tendências políticas: ONZE DOS TREZE LÍDERES CONDENADOS NO JULGAMENTO SLÀNSKY ERAM JUDEUS. Nenhum outro elemento unificava tão bem os acusados: Rudolf Margulius era um neo-socialista com simpatias ocidentais, Vladimir Clementís era um rebelde veterano independente de Moscou, o próprio Rudolf Slànsky, vice-líder do partido e mais destacado dirigente entre os acusados, era um stalinista linha-dura radicalmente pró-URSS, Artur London era um Republicano da Guerra Civil Espanhola, Bedrich Reicin era um soldado de longo histórico de luta anti-nazista, Mirada Horáková era uma ativista renovadora que chegou a ser defendida por Winston Churchill. No epicentro do espetáculo estava o sinistro Klement Gottwald, premier da Tchecoslováquia desde o Golpe de 1948 no qual fora empossado justamente pelos supostos traidores que estava a executar. Gottwald não hesitou em ceder às pressões de Stálin que se livrasse dos elementos "rebeldes" do KSC, e forjou a tal conspiração de vários militantes, muitos dos quais nunca tiveram contato, e alguns dos quais era inclusive amigos próximos de Gottwald (como o próprio Rudolf Slànsky suposto líder da conspiração que, como os demais, foi torturado para confessar uma culpa inexistente).
Esse era o status quo do KSC à época da ascensão dos reformistas: de todos os Partidos Comunistas do Bloco Soviético, cujas lideranças judaicas foram expurgadas nos derradeiros anos da vida de Stálin, o mais disciplinado e linha-dura (e ausente de judeus) era o KSC, e Novotný, o sucessor stalinista de Gottwald, adotou essa linha com tamanho rigor que ao ser desafiado em outubro de 1967, ninguém mais no Comitê Central suportava a sua tirania. Novotný recorreu ao PC da União Soviética para contornar a crise, e a ida de Leonid Brezhnev à Praga em dezembro de 1967 precipitou a queda: a lealdade cega de Novotný ao PC da União Soviética tinha criado um desgaste tão grande no KSC que Brezhnev preferiu destituí-lo de seus cargos, e no dia cinco de janeiro de 1968 Alexander Dubcek o substituiu como primeiro-secretário do KSC, no marco inicial da Primavera de Praga. Novotný seria finalmente desalojado da presidência da Tchecoslováquia no dia 22 de março, substituído por Ludvik Svoboda. Com Dubcek à frente do KSC, a liberdade de imprensa foi restaurada ao país e uma política de defesa dos Direitos Humanos foi adotada pelo governo. Em abril Dubcek lançou seu "Programa de Ação" propondo liberdade de consumo, liberdade de expressão, federalismo (Dubcek inclusive era eslovaco) e democracia pluripartidária, a ser implementado no 14o. Congresso do KSC marcado para nove de setembro, ocasião na qual um novo Comitê Central seria eleito, para substituir a estrutra que Gottwald implementara em 1952.
A abertura do regime tcheco-eslovaco precipitaria as grandes manifestações populares em favor de uma radicalização democrática, desencadeada com o artigo "Duas Mil Palavras" de Ludvík Vaculík, um jornalista que buscava apressar as reformas para além da influência de Dubcek, na tentativa de promover um rompimento forte com as forças soviéticas do KSC. Mas Dubcek temia repetir o radicalismo anti-stalinista da Revolução Húngara de 1956, quando o Pacto de Varsóvia esmagou as reformas de Imre Nagy, e por isso começou em julho negociações com Leonid Brezhnev e o PC da União Soviética para não provocar antagonismo do Pacto. Aparentemente, a velocidade das reformas libertárias do KSC já provocara antagonismo suficiente, porque embora em momento algum Dubcek defendesse que a Tchecoslováquia saísse da Comecon e da Organização do Pacto de Varsóvia, os stalinistas do KSC não poderiam, por questão de índole ideológica, tolerar qualquer tentativa de democratização--e Brezhnev se dispunha a ser avalista. Mesmo durante as negociações de julho a "ala conservadora" do KSC já tinha elaborado um projeto de golpe de estado que contaria com apoio de tropas soviéticas para depor Dubcek, e esse oficiais encaminharam o pedido durante os bastidores da própria negociação. Oficialmente Brezhnev prometeu não interferir no 14o. Congresso do KSC e inclusive retirar tropas do Pacto de Varsóvia que ensaiavam manobras militares em território tcheco-eslovaco, e no dia 3 de agosto todos os países do Pacto se encontraram em Bratislava, na Eslováquia, para assinar um acordo que determinava que as intervenções militares só aconteceriam se um país sofresse um golpe burguês-capitalista. Com os termos ideológicos do Pacto a critério de Brezhnev, a URSS não tardou a mostrar o que ela pensava do "socialismo com rosto humano" de Dubcek: na virada do dia 20 pra 21 de agosto cerca de 7 mil tanques soviéticos invadiram a Tchecoslováquia, e entre duzentos e seiscentos mil soldados do Pacto marcharam contra a democratização, vinte e oito mil só da Polônia. Também participaram Hungria, Alemanha Oriental, e Bulgária. Dubcek implorou desesperadamente para que seus conterrâneos praticassem desobediência civil e resistência não-violenta aos soldados do Pacto, setenta e dois civis tchecos e eslovacos foram assassinados no massacre, centenas foram feridos, 70.000 fugiram imediatamente do país (o número total de emigrantes chegaria a trezentos mil), e um estudante, Jan Palach, se imolou em protesto contra a invasão. Dubcek, que nem chegou a assumir a presidência da Tchecoslováquia, foi destituído do cargo e transformado num burocrata menor do governo. Um protesto de jovens russos na Praça Vermelha em Moscou contra a invasão promodia pela política da URSS (que viria a ser chamada de "Doutrina Brezhnev") seria brutalmente reprimida no dia 25 de agosto. A Tchecoslaváquia permaneceu ocupada pela reação anti-democrática até o fim do ano.
A Primavera de Praga foi uma utopia tão doce e tão inocente, e sua repressão foi tão violenta e tão gratuita, que o episódio foi um dos grandes divisores de águas na história política do Socialismo. Primeiro consagrou o comunismo soviético como monolítico e irreformável. Daí seu colapso foi definitivo e inevitável. Em segundo lugar, as formas democráticas de socialismo se tornaram irrevocavelmente inconciliáveis com a bipolarização da Guerra Fria. Daí o limbo da inoperância no qual o socialismo humanitário fora arremessado até a Era Gorbachev. E por fim, ficou patente que o socialismo internacional não poderia ser outra coisa que não a extensão da política externa soviética. Os países que não eram satélites da URSS, portanto, perderam a vocação internacionalista: Cuba foi inexpugnavelmente isolada, a China se transmutou numa potência imperialista de mercado, o Vietnã, Laos e Camboja se tornaram típicas repúblicas do Terceiro Mundo asiático, a Albânia radicalizou-se num sistema fascistóide, e a Iugoslávia se tornou um veículo do nacionalismo sérvio. A Primavera de Praga marcou o rompimento da intelectualidade de esquerda do Ocidente com o bloco oriental, além da guinada em direção ou à social-democracia, ao trotskyismo, ou ao anarquismo, a intelectualidade anti-conservadora começou a abrir filões para a geração que nascera sob a opressão do do Sovietismo, mais compenetrados na contestação cultural e comportamental do que na revolução proletária. Desse contexto surgem alguns dos grandes intelectuais judeus da contracultura, como Hannah Arendt, Leszek Kolakowski, André Glucksmann, Meyer Schapiro e Tom Stoppard. E é com esse espírito que Stoppard escreve sua obra, inclusive a que aborda a invasão soviética da Tchecoslováquia.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Capitão Barros Bastos e os judeus em Portugal -Caso Dreiffus português

Capitão Barros Bastos e os judeus em Portugal -Caso Dreiffus portuguêsBarros Bastos Dreiffus luso e outsider da causa marrana no século XX

Interessantemente alguns veiculos de comunicaçao do ishuv tem dado alguma nota a historia desta figura emblematica do do Capitão Barros Basto,Arthur Carlos de BARROS BASTO, para muitos um desconhecido, ele é uma espécie de Caso Dreyfus lusitano,uma historia que merece ser divulgada. Embora não possamos aqui fazer comparaçoes quanto a importancia dos casos, a questão em que Barros Bastos insere-se tem sua singularidade e similitudade primeiro por que ele era um tambem um herói do exército ,aqui o português , e que ao descobrir sua ascendência judaica resolveu retornar à fé ancestral em um processo que marcaria a Historia portuguesa por abrir as portas para os estudos sobre o marranismo em pleno séc XX. Sendo um homem de fé inabalável“Adonai li velo irá” (Tenho D-us comigo, por isso não temerei”)foi sepultado, segundo o seu desejo, com a sua farda de valoroso capitão, e suas medalhas e condecorações obtidas numa brilhante carreira de militar, na implantação da República em 1910, e nas batalhas da Flandres.

Em Portugal, ainda nos dias de hoje e mesmo no Brasil tanto dentro ou fora da Comunidade judaica ainda existem tabus que Barros Bastos enfrentou no inicio do século XXE Isso ,cabe frisar mais uma vez ,por volta dos anos 30 do século passado, em pleno Estado Novo em um país dominado pela intolerância religiosa e pela tentaiva lusa do cientificismo. E que de uma hora para outra centenas de pessoas resolveram sair de seus esconderijos e assumir publicamente seu judaísmo ou simplesmente tendo coragem de dizerem se de origem judaica em varias regioes lusas como a nortenha e de Tras- os- montes. E como hoje em Portugal algo que nos arremete a existencia de judeus como nomes logicamente portugueses,como Moreira, Almeida, Mendes, Affonso,Mello,Vasco, ...outros nem tão incomuns como Melamed,Medina,Benayoum ou aportuguesados do hebraico como Sekher,Anidjar,Azoulay,Fourtune,Choucroum,...mas que a primeira vista pareceriam apenas um conto da carochinha ou exotismo.

Voltando ao Capitao Barros Bastos, alem da fronteira do atavismo e o do não proselitismo, ,apos sua conversão (ou retorno ,como se referia)enfrentou a Igreja e o governo que não gostaram da história e forjaram um processo contra Barros Basto, e dentre inumeras acusações ,como de sedição e homossexualismo,acabou expulso apos execlação moral, do exército português pelo simples fato de sua descoberta. Barros Basto foi um verdadeiro apóstolo dos Marranos, aos quais dedicou a sua vida e padeceu por eles, morrendo na desgraça, quando todos à sua volta estavam convencidos de que a sua Obra tinha sido vencida pelos duros golpes infligidos pelos seus inimigos, de fora e de dentro.Mas Barros Basto não era um Marrano a stricto senso, porque esse termo designa o judeu forçado a converter-se ao cristianismo, cuja família continuou a praticar a religião dos seus pais, em segredo, consciente do perigo de morte em que incorria.Barros Basto era descendente desses judeus convertidos pela força – revelou-lhe muito em segredo, seu avô, na biblioteca da casa em Amarante, quando ele tinha apenas 8 anos. Era um segredo que, em cada geração, só um membro da família Barros Basto guardava. E o avô, antes de morrer, escolheu Arthur, e não o pai deste, para depositário desse segredo.A família não guardava qualquer preceito judaico, e, pelo contrário, sua extremosa mãe era católica muito praticante, que o levava à Igreja, e tinha grande desgosto pela aversão que a criança demonstrava, sem saber porquê, aos círios e às procissões.

Da existência de judeus em Portugal só soube em 1904, quando leu num jornal que havia sido inaugurada uma sinagoga em Lisboa.Foi nessa sinagoga que ele tentou ser admitido, quando, anos mais tarde, o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica, em Lisboa.Mas os dirigentes da sinagoga dissuadiram-no. Não só porque o judaísmo é adverso a aceitar prosélitos, como porque os judeus de Lisboa se sentiam ainda apenas “tolerados” e temiam ser acusados de missionarismo.Assim o jovem oficial português não foi às cegas para o judaísmo. Pelos seus próprios meios, como autodidata, ele estudou profundamente e comparou as principais religiões: além do Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e as doutrinas teosóficas de Madame Blavatsky e de Steiner.Vendo baldados todos os seus esforços para ser aceite pelos judeus, aos quais, segundo a revelação de seu avô, ele pertencia, Barros Basto entendeu que, para ser um homem digno não era necessário ser admitido na sinagoga,mas fez valer o esforço de sua origem que até então era objeto de obscurantismo pela familia neste Portugal catolico e que a séculos se esforçara em apagar suas origens impuras.

Cabe tentar compreender aqui um Portugal que no desenlace dos séc XIX e XX rivalizava a colonizaçao da Africa com potencias europeias nas ciencias e estudos antropologicos e que atraves de Barros Bastos ganhava o problema de sua origem 'impura' judaica.Portugal queria firmar se como nação homeogenea e atraves de um renomado capitão obtinha a ingloria de admitir que o sonho luso teria de admitir velhas diferenças .Um exemplo de sua luta é a Sinagoga Kadorie, do Porto, por Barros Bastos erigida,e que é um magnífico prédio que abriga a coletividade judaica local. A comunidade israelita portuguesa iniciou uma mobilização para a revisão do seu caso. A campanha foi lançada há poucos dias e recebeu um número impressionante de adesões. É preciso que a coletividade judaico-brasileira tome conhecimento desse fato e possa participar assinando a petição on-line cujo link segue abaixo.

http://www.petitiononline.com/benrosh/petition.html


*em breve adentraremos mais a questão acerca do Marranismo no Brasil e em Portugal.

sábado, 22 de dezembro de 2007

A LEI DA HONESTIDADE: SÓ GANHANDO AS RUAS

A Campanha do "Abertas Já" Tem que Mobilizar a Sociedade Civil
O CONGRESSO NACIONAL SERÁ REFÉM DA TRANSPARÊNCIA--QUEM NÃO QUISER ABRIR AS CONTAS NÃO PRECISA SER CANDIDATO
A Projeto de Lei de Iniciativa Popular pode ser conferido na parte lateral inferior do blog. Ele será lançado em Abril de 2008, no aniversário de vinte e cinco anos do lançamento da Emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para a Presidência da República. Esse aniversário será importante para construir um apelo popular ao projeto, e se a sociedade civil se mobilizar como fez em 1983/1984, duas certezas serão atingidas: o Projeto de Iniciativa Popular conseguirá as assinaturas necessárias para ser encaminhado ao Congresso (1% do eleitorado) e a cobertura dos meios de comunicação será tão intensa que o congressista que ousar votar contra será desgraçado pelo eleitorado. Faremos então uma OUTRA campanha: a de pressionar o Congresso para aprovar a lei. Como ela só poderia entrar em vigor na legislatura seguinte à que aprovar a Lei da Honestidade, estamos até dando uma colher de chá aos congressistas opacos que tenham contas a esconder a concluir seus mandatos discretamente e não mais se candidatar. Vamos pagar pra ver: a maioria dos congressistas irão, de repente, entender que não há necessidade de se reelegerem.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

UM JUDEU NA CORTE DO REI GETÚLIO??



Samuel Wainer, o Último dos Jornalistas Intrépidos
O polêmico criador do "Última Hora" que marcou o jornalismo nacional foi um dos judeus brasileiros mais resilientes nos tempos de Getúlio Vargas
Samuel Wainer nasceu em 1912. Onde, ninguém sabe. São Paulo, segundo seus muitos defensores--seria brasileiro nato, nesse caso. Na Bessarábia (hoje Moldávia), segundo seus muitos detratores--seria estrangeiro, juridicamente impedido de ser dono de um órgão de comunicação. Não é um mero dado biográfico--que sequer sua autobiografia solucionou--que se encontra em questão, mas a legitimidade de Samuel como dono do "Última Hora", o mais ousado jornal na história da República Brasileira. Através dele Samuel Wainer revolucionou a prática de jornalismo no país, com cacife (e sucesso, muito sucesso) para desfiar alguns dos grandes tubarões da mídia, como seu ex-patrão, Francisco de Assis Chateaubriand, e seu eterno rival, Carlos Lacerda.
Qual o motivo do incômodo? No caso de Assis Chateaubriand não o discriminava por ser judeu--discriminou tantos outros judeus, de certo modo, mas quando um judeu se mostrava útil, Chateaubriand o apreciava (como era o caso de Eugênio Gudin). Apreciar e afagar uma pessoa por sua utilidade conjuntural, mesmo com maiores desafetos, era hábito de Assis Chateaubriand. Mas o Última Hora foi o maior fenômeno de vendas do jornalismo brasileiro e Wainer devorou um naco do mercado de Chateaubriand. Já no caso do vil Carlos Lacerda, o udenista inflamado tinha o hábito de combater todos que não se sujeitavam aos seus violentos projetos políticos, mas com Samuel havia uma venenosa rixa pessoal.

Mais do que mera concorrência aos dois jornalistas sacanas, o "Última Hora" foi o único grande jornal do país que tomou a defesa de Getúlio Vargas nos anos 50, no auge da guerra política dos nacionalistas com os entreguistas. E Vargas, ícone máximo do movimento nacionalista, era inimigo jurado de entreguistas assumidos como Lacerda, e só não era inimigo de Chateaubriand porque muitas águas já haviam rolado entre os dois (relação deles se alternava entre a hostilidade e o companheirismo). Getúlio Vargas proporcionou a Wainer a oportunidade de fundar seu próprio jornal, coisa que sob o tacape de Chateaubriand jamais aconteceria, pois nem um cargo de diretor de um dos Diários Associados o velho patrão o concederia, muito embora o talentoso Wainer fizesse por merecer. Com o apoio de Getúlio e um controvertido finaciamento do Banco do Brasil, Wainer fundou o "Última Hora" em 1951, do qual foi editor-chefe e diretor até sua falência em 1971, decorrente da perseguição implacável da ditadura militar contra o único órgão de imprensa que havia combatido o Golpe de 64.

Samuel Wainer teve sua grande estréia no jornalismo durante o Estado Novo, escrevendo no jornal "Diretrizes", publicação de centro-esquerda que acabaria perseguido pelo regime. Seu talento foi descoberto pelo truculento Assis Chateaubriand, e uma convocado para os jornais do milionário paraibano, seu brilhantismo lhe valeu a oportunidade única de entrevistar Getúlio Vargas, então senador pelo Rio Grande do Sul, 1949. No que seria uma das grandes entrevistas históricas do Brasil, o velho caudilho gaúcho revelou a disposição de batalhar para se retornar à Presidência da República de que já fora titular, com a famosa frase "voltarei como um líder de massas". Wainer tornou-se um entusiasta da candidatura e Vargas, vitorioso em 1950, apelidou Wainer de "Profeta" e lhe concedeu sua primeira entrevista como presidente-eleito. Uma forte amizade desenvolvida entre os dois ao longo desses dois anos mostrou a Vargas que a lealdade de Wainer, além de seu talento inegável, o tornava o candidato ideal para dirigir um jornal que fizesse contraponto à grande tendência política da mídia da época: anti-nacionalismo, anti-trabalhismo, anti-populismo, ou seja, hostil a Getúlio. De todos os jornais de Pindorama, o mais ferozmente anti-getulista era o "Tribuna da Imprensa" dirigido pelo intolerante udenista radical Carlos Lacerda, um anti-comunista brutal e ácido difamador (chamava Getúlio de "Patriaca do Roubo").

Lacerda, ex-companheiro de redação de Wainer nos Associados de Chateaubriand, (onde a lendária rivalidade fora ensaiada) acusava Getúlio de crimes gravíssimos e orientou seu séquito udenista (conhecido como "Clube da Lanterna" e famoso por seu anti-comunismo golpista e doentio) a instalar uma CPI para retirar de Wainer o "Última Hora", alegando ser ele estangeiro, falsificador da própria certidão de nascimento--tudo isso para golpear Vargas massacrando o judeu forasteiro. Chateabriand, de olho nas vendagens extraordinárias do "Última Hora", daria espaço irrestrito em sua TV Tupi para Lacerda destilar todo o seu cruel veneno. A acusação de ser estrangeiro era enfática quanto a origem judaica de Samuel Wainer e era especialmente traiçoeira, por Wainer ser justamente um dos grandes nacionalistas de esquerda do Brasil. Mas Wainer não deixaria barato: o cartunista Lan, colaborador permanente do "Última Hora", de origem italiana e simpatias getulistas, criou, por encomenda do patrão, "o Corvo", caricatura mordaz de Lacerda, pelo seu aspecto antipático e sua vilania tirânica. Lançado por Wainer, o apelido de "Corvo" colou e perseguiria Lacerda até a morte, mas ao fim da polêmica da CPI (que acabaria provando que TODOS os jornais eram financiados com dinheiro público, especialmente os de Chateaubriand e inclusive o de Lacerda), Getúlio estava duramente desgastado. Acabou se suicidando depois que o "Corvo" fizera o público crer que o Presidente fora responsável pelo Crime da Rua Toneleiro, no qual Lacerda tomou um tiro e seu guarda-costas, Major Rubem Vaz, foi assassinado. O suicídio de Vargas foi um enorme fenômeno popular e reverteu a opinião pública contra "o Corvo", contando com a ajuda do "Última Hora". Tanto que a sede do "Tribuna da Imprensa" acabou completamente empastelada.

E Wainer não deu trégua a Carlos Lacerda. Foi inocentado em todas as instâncias da acusação de falsidade ideológica e pôde manter o "Última Hora", para o desgosto do amragurado rival, líder da UDN. De quebra, Wainer foi enorme entusiasta do governo Juscelino Kubistchek, que embora tenha entrado para a História como um grande estadista defensor da democracia, era perseguido implacavelmente pela imprensa e pela bancada da UDN no Congresso, sobretudo sua ala mais radical, a "Banda de Música" (da qual Carlos Lacerda era o maior e mais agressivo orador, acusando JK das piores barbaridades). O "Última Hora" defendeu Juscelino (chamado por Lacerda de "O Cafajeste Máximo"), atacou Jânio Quadros, defendeu João Goulart, e atacou a ditadura militar (tudo na contramão do "Tribuna da Imprensa").
Com o Golpe de 64 e o AI-1, outro judeu trabalhista, Raul Ryff, secretário de João Goulart, foi um dos 102 primeiros brasileiros a serem cassados pelo regime ditatorial que Carlos Lacerda ajudara a montar (o próprio Lacerda acabou perseguido pelo regime de 64, quando se deu conta que ele não o faria Presidente da República, jamais). O regime militar perseguiu o "Última Hora" desde o primeiro dia, e Samuel Wainer foi o maior crítico da ditadura dentro da imprensa. Inclusive, por ser defensor do janguismo e ser crítico dos direitistas, Wainer teve o "privilégio" de ser o primeiro jornalista a ser censurado e CASSADO no Brasil. Finalmente, a censura letal da ditadura levou a um melancólico fim do jornal oposicionista: em 1972, devastado por uma censura mortal, o "Última Hora" foi à falência e Wainer teve que vendê-lo a um grupo que não soube administrá-lo, levando ao encerramente definitivo das suas atividades na década seguinte. Samuel Wainer morreu em 1980, já anistiado, como modesto colaborador da Folha de São Paulo.

É curioso que um judeu de grande destaque da sociedade tivesse ganho tanta amizade com Getúlio Vargas, cujo política anti-comunista ficaria para sempre marcada pela deportação de Olga Prestes, esposa de Luís Carlos Prestes (líder máximo do Partido Comunista Brasileiro), que estava grávida, para a Alemanha nazista. Mas embora houvesse anti-semitismo entre grupos varguistas (a começar pelo intragável chefe de polícia Filinto Müller, inimigo histórico de líder socialista Prestes, o grandioso "Cavaleiro da Esperança"), muitos anti-getulistas também foram anti-semitas ferrenhos, sobretudo na tentativa de humilhar e desmoralizar Samuel Wainer. A verdade é que nós, judeus, sempre tivemos nossos simpatizantes como aliados conjunturais em função de circunstâncias históricas. Getúlio Vargas era, antes de tudo, um pragmático. Condenava uma judia que lhe era perigosa como Olga Benário Prestes e glorificava um judeu que lhe fosse proveitoso, como Samuel Wainer.

*Samuel Wainer casou-se com a über-model Danuza Leão, uma das musas da Terceira República (1945-1964), com quem teve os filhos Samuel e Débora
*O "Última Hora" foi o pirmeiro jornal brasileiro a adotar uma seção de cartas do leitor, rapidamente copiado por jornais de todo o país
*Foi para Samuel Wainer quem Getúlio proferiu a lendária frase "Só morto sairei do Catete!", publicada na edição do "Última Hora" horas depois de sua morte
*Samuel Wainer foi o criador de uma nova seção do jornal que ganharia o mundo: o Caderno de Bairro
*É de Samuel Wainer a frase "Assis Chateaubriand foi o verdadeiro 'Cidadão Kane' brasileiro"
*O "Última Hora" consagrou os talentos de figuras históricas como Nelson Rodrigues, Paulo Francis e até o Chacrinha!