segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Nietzsche, que o Nazismo Perverteu e Chaplin, que Subverteu o Nazismo







O Dia Quinze de Outubro Celebra o Aniversário de Dois Alemães Incompreendidos Em Seu Tempo: Friederich Nietzsche e Adenoid Hynkel

Ambos nasceram na década de quarenta. Um, no século XIX. O outro no século XX.
Mas foi o século XX que se identifica através deles. Um declarou a Destruição da Moral; o outro decretou a Moral da Destruição. O primeiro identificou o horror no racionalismo que definiria o século XX. O segundo definiu o racionalismo como horror que identificou o século XX. O primeiro, gênio chamado de louco e o segundo, louco chamado de gênio. Friederich Nietzsche morreu no último ano antes do cruel século XX e quarenta antes de surgimento de Adenoid Hynkel, a encarnação da crueldade desse século.

Nietzsche propôs a abolição do moralismo, filosoficamente sem valor. Com a derrocada do moralismo, a morte de D'us, tudo estava permitido e o Homem poderia partir para um salto na filosofia--o de ser übermensch, o Super-Homem. Após sua morte, entretanto, e com o aval de sua irmã anti-semita, os próceres do totalitarismo genético, os nazistas, se apropriaram do conceito de Super-Homem para decretar a existência de uma super-raça--e pregar o extermínio das raças inferiores.

Essa apropriação pervertida foi absurda por vários motivos, a começar por estar a serviço de uma nova Moral Absoluta--a hegemonia da Raça Superior--quando o Super-Homem de Nietzsche era caracterizado justamente pela superação da moral--que dirá uma moral genética, ainda mais determinista que qualquer moral religiosa. O absurdo da filosofia nazista seria cômica se não fosse tão trágica--mas sua inanidade cômica foi exposta com o filme "O Grande Ditador" em que Charlie Chaplin ridiculariza Adolf Hitler na figura de Adenoid Hynkel. Na época de sua produção, Chaplin foi criticado por enfatizar o cômico em detrimento do obviamente trágico do nazismo. Em analogia a Nietzsche, Chaplin estava adiante de sua época. Foi a Guerra que precipitou a época, e como ela divdiu as águas da História, a partir dela Chaplin e Nietzsche foram alcançados. Na mesma data, com o lançamento de "O Grande Ditador" no nonagésimo-sexto aniversário de Nietzsche, o mundo estava pronto para eles. Não por acaso, Nietzsche falava do Nascer-Póstumo, mal traduzindo, o homem que nasce em um descompasso com sua época.

Nietzsche, um enfático opositor do anti-semitismo, teve sua obra pervertida pela irmã, que se tornaria uma fanática defensora do anti-semitismo nazista. O Luís Fernando Veríssimo costuma dizer que o chargista está adiante de seu tempo, pois hoje faz risada de todas as tragédias com as quais nos resignamos dizendo "um dia olharemos para trás e iremos rir disso tudo." Chaplin é como um chargista, e o Adenoid Hynkel, a risada à ideologia nazista com sua estética obsessivamente helênica-platonista se apropriando de metades de discurso de um ferrenho crítico do racionalismo platônico. Já foi dito que "o artista não está a frente de seu tempo; ele é o seu tempo, e os outros é que estão atrás." Bem, Chaplin e Nietzsche eram seus tempos, os outros estavam atrás e os alcançaram na guerra. Se Nietzsche não tivesse enlouquecido até a morte, a loucura do nazismo o teria enlouquecido, até a morte. Caso contrário, só restaria achar graça, alguma graça, como fez Chaplin.


Parafraseando Woody Allen, "D'us está morto, Nietzsche também, e ninguém está se sentindo muito bem."

Um comentário:

Haim disse...

Mais um texto brilhante, Bruno!
Parabens, irmão.
Um abraco.
Henry